segunda-feira, 28 de fevereiro de 2011

Cisne Negro: beleza e alienação na arte

Por Patrícia Aun e Henrique Canary, de São Paulo.

Cena do Filme
• Você não precisa ter assistido a O Lago dos Cisnes para ver Cisne Negro nos cinemas. Mas precisa conhecer o enredo deste clássico do balé, escrito em 1876 por Tchaikovsky. Nele, um bruxo se apaixona por uma linda princesa e, ao ser rejeitado, decide transformá-la em um cisne branco. Presa dentro do corpo do cisne durante o dia e assumindo novamente a forma humana à noite, a jovem sonha com o fim da maldição. Para que o feitiço seja desfeito, ela precisa encontrar alguém que ame somente a ela. Certa noite, um príncipe a encontra na floresta e se apaixona perdidamente. A maldição parece estar perto do fim. Porém o bruxo, percebendo que perderia o poder sobre a moça, resolve enganar o príncipe: cria, a partir de um cisne negro, uma jovem idêntica à princesa. Confundido, o príncipe se declara ao cisne negro, pensando se tratar de sua amada. Assim, o bruxo consegue evitar o fim do feitiço. Ao ver que permaneceria para sempre presa dentro do cisne branco, a princesa se atira de um penhasco e, na morte, encontra a liberdade que desejava.

Cisne Negro, do diretor Darren Aronofsky, gira em torno da montagem desse espetáculo num teatro de Nova York. No filme, Natalie Portman é Nina, uma jovem bailarina escolhida para o cobiçado papel de protagonista no grande clássico. Como na história o cisne negro é uma cópia do cisne branco, Nina precisa interpretar os dois papéis. No entanto, a dança do cisne branco é completamente diferente da dança do cisne negro. O cisne branco é doce, frágil e meigo, exatamente como Nina. Já o cisne negro é o seu oposto: sensual, agressivo e traiçoeiro. Embora seja uma bailarina tecnicamente impecável, Nina encontra enormes dificuldades para interpretar o cisne negro. Seus movimentos são perfeitos, mas lhes faltam calor e emoção. O fantasma de um fracasso começa a atormentá-la.

Competitividade e opressão
Os problemas de Nina aumentam quando surge Lily (Mila Kunis), uma bailarina feliz consigo mesma, cheia de vida e expressão. Lily é tecnicamente inferior a Nina, mas a supera em muito em leveza e sensualidade, o que a torna perfeita para o papel de cisne negro. Percebendo o talento de Lily, Thomas Leroy (Vincent Cassel), diretor da companhia, passa a dar sinais de que ela poderia substituir Nina no papel de protagonista. Assim, Nina se vê envolvida numa teia de intrigas e competição. Como um déspota machista e opressor, o personagem interpretado por Vincent Cassel leva Nina até o limite de sua capacidade física e psicológica. Utilizando-se do poder de promover e descartar bailarinas, aproveita para assediá-la e humilhá-la à exaustão.

Trailer
Mas não é só no teatro que Nina enfrenta problemas. Sua mãe é uma ex-bailarina que deixou a dança devido à gravidez inesperada e, frustrada consigo mesma, impõe o balé à filha como uma obrigação, uma espécie de pagamento pela interrupção de sua carreira. Em uma relação claramente doentia, se dissolvem as fronteiras entre os sonhos da mãe e os da filha. Aos 28 anos, Nina é tratada como uma garotinha e vive para atender às expectativas da mãe. Ao mesmo tempo em que prende a filha aos seus desejos, a mãe tenta sabotá-la, criticando-a permanentemente, aumentando sua sensação de fragilidade e deixando-a ainda mais ansiosa e obsessiva. Fruto da pressão, Nina passa a apresentar sérios distúrbios psíquicos.

À medida que se aproxima a data de estreia do espetáculo, Nina vai percebendo que, para interpretar o cisne negro, não bastam muitas horas de ensaio e uma dieta rígida: ela deve se transformar em algo diferente do que ela é. Tímida, alienada e oprimida, Nina precisa romper as correntes invisíveis que a prendem ao cisne branco. Todo o filme gira em torno dessa batalha interior. O desfecho da trama é verdadeiramente surpreendente.

Arte e alienação
Quem vê na arte apenas beleza e distração deveria assistir a Cisne Negro. Neste longa, vencedor de inúmeros prêmios internacionais, Darren Aronofsky nos conduz aos subterrâneos pouco iluminados do mundo do balé: as lesões que nunca se curam, o esforço físico desumano e as restrições alimentares a que as bailarinas são submetidas para evitar o ganho de peso são mostrados no filme de maneira cruel e realista. Para fazer o papel, a própria Natalie Portman precisou perder dez quilos e estudar balé durante um ano inteiro.

Ainda assim, as maiores feridas não são as físicas. A rivalidade doentia, a exigência da perfeição e o vazio interior de quem só faz uma única coisa na vida – dançar – também deixam marcas profundas. A perfeição técnica de Nina é do tamanho de sua infelicidade: não sabe e não faz outra coisa a não ser dançar balé. Para ela, um fracasso como bailarina seria o fracasso de toda sua vida. “Já tenho 28”, diz a jovem em uma cena, como quem nunca teve nem nunca terá outra chance de fazer algo importante.

Os incríveis eventos que envolvem a personagem são construções de sua própria mente atormentada. A partir de um drama individual, vemos o quanto a competitividade capitalista, onde uma estrela só pode brilhar se muitas outras se apagarem, é capaz de transformar a mais bela das artes em um espetáculo de alienação e sofrimento. “Eu só queria ser perfeita”, diz Nina em outro momento. Mas a perfeição pode cobrar um preço alto demais.


Cisne Negro está indicado ao Oscar em cinco categorias:
Melhor Filme
Melhor Diretor (Darren Aronofsky)
Melhor Atriz (Natalie Portman)
Melhor Fotografia
Melhor Edição
FICHA TÉCNICA:
Título original: Black Swan (EUA, 2010, 1h43min)
Gênero: Suspense
Direção: Darren Aronofsky
Roteiro: Andres Heinz e Mark Heyman (baseado em história de Andres Heinz)
Montagem: Andrew Weisblum
Produção: Scott Franklin, Mike Medavoy, Arnold Messer e Brian Oliver
Música: Clint Mansell
Fotografia: Matthew Libatique
Direção de arte: David Stein
Figurino: Amy Westcott
Efeitos especiais: Matt Kushner
Elenco: Natalie Portman (Nina Sayers), Vincent Cassel (Thomas Leroy), Mila Kunis (Lily), Barbara Hershey (Erica Sayers), Winona Ryder (Beth MacIntyre), Benjamin Millepied (David)

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