domingo, 10 de abril de 2011

Nota do PSTU sobre o escracho feito pela Rede de Coletivas Feministas Autônomas Contra o Aumento a um agressor machista durante um dos atos contra o aumento das passagens de ônibus


No Brasil por ano mais de 1 milhão de mulheres são vítimas de violência doméstica, a cada 15 segundos uma mulher sofre agressão física, a maior causa de invalidez de mulheres entre 16 e 44 anos é a violência doméstica, 10 mulheres são assassinadas por dia, 70% dos agressores são maridos, companheiros ou ex-companheiros, um em cada 5 dias de trabalho perdidos pelas mulheres decorre de algum problema de saúde causado por violência doméstica.

Os números são alarmantes e assustadores. Mas não podemos discutir a violência machista em abstrato, apenas em cima de dados e números. As pessoas que sofrem a cometem as agressões são pessoas reais, com nomes e rostos. E as mulheres perante a violência cotidiana precisam de respostas e saídas.

Lutamos contra o machismo e suas expressões mais claras, com atos, discussões, organização de mulheres, autodefesa e auto-organização. Lutamos também para o Estado garantir nossa segurança e a punição dos agressores, com projetos e leis como a Lei Maria da Penha. Essa luta por dentro do estado é necessária, mas sabemos que esse Estado burguês não nos representa, e sabemos que leis e delegacias não nos protegem como mostra a própria Lei Maria da Penha, que apesar de ser aprovada com pressão dos movimentos feministas, não é suficiente para evitar e combater a violência contra a mulher. E, além disso, o Estado burguês nunca lutará para acabar com o machismo, pois ele se alimenta de todo tipo de preconceito, como o machismo, racismo e homofobia para seguir super explorando os mais oprimidos e dividir a classe. 

Por isso é necessário que nós, mulheres e homens, de forma organizada, respondamos politicamente as agressões cometidas, porque só assim de fato nos defenderemos.


A nossa moral
Porém existe uma confusão na esquerda, e muitos ativistas comparam a nossa moral, a moral dos movimentos sociais, dos trabalhadores, da esquerda, com a moral da burguesia. A burguesia impõe a ideologia de que o dialogo é sempre a melhor forma de resolver os impasses, que qualquer tipo de enfrentamento é errado. Essa ideologia leva a acreditar que as melhores saídas para a classe trabalhadora são os acordões com os chefes, colaboração de classes, no lugar de enfrentamentos como greves, piquetes, luta de classes. O mesmo ocorre com o machismo, ainda mais em casos graves como agressões físicas e psicológicas. Ao invés de diálogos com os agressores, o feminismo reponde ao machismo com ação direta, denúncia e enfrentamento. O machismo é um inimigo de qualquer luta por outra sociedade. Essa é uma compreensão fundamental para mulheres e homens dessa luta.

As companheiras de Rede de Coletivas Feministas Autônomas Contra o Aumento, no último dia 30/03, na concentração de um ato contra o aumento da passagem denunciaram publicamente Xavier (Rafael Pacchiega), um ativista do MPL que cometeu diversos atos de machismo, como agressão física e psicológica a diversas companheiras, com as quais ele se relacionou.

Ele prosseguia participando de espaços do movimento e atos contra o aumento da passagem, constrangendo as mulheres, na medida em que se sentiam inseguras de estaram nos mesmos espaços fazendo com que muitas se retirassem. Ao ver um homem que cometeu diversas atitudes machistas graves continuar participando livremente dos espaços e atos do movimento, as mulheres que não se sentiram a vontade com a situação foram penalizadas, pois tiveram suas liberdades podadas.

Acreditamos que o protesto e a denuncia não enfraquece o movimento da luta contra o aumento e o MPL, na verdade o fortalece. A esquerda não pode incorrer no mesmo erro dos stalinistas que julgaram qualquer movimento contra opressões como um divisor do movimento. O que divide o movimento e qualquer luta é a opressão de mulheres e de todos os oprimidos! As mulheres são metade da classe trabalhadora, participam ativamente de diversas lutas, e inclusive estiveram em peso em todos os atos contra o aumento da passagem. Aceitar o machismo nas fileiras da esquerda é perder preciosas militantes, jogar no lixo princípios históricos da esquerda e fazer o jogo da burguesia.

Não podemos compactuar com atos de machismo, que apenas destroem a classe trabalhadora, seja de dentro ou de fora do movimento!

Na sua nota, o MPL expõe as medidas tomadas para a reintegração do ativista Xavier ao movimento, após um afastamento de quatro meses. Achamos importante que qualquer movimento discuta internamente questões de gênero e como combater o machismo internamente, como o MPL fez. Porém achamos que o MPL não compreendeu a profundidade do caso e de como isso afetou as mulheres. O MPL, com as medidas tomadas pensou em reintegrar o ativista Xavier, mas pensou em como reintegrar e deixar confortável as mulheres do movimento? E as agredidas, que não são apenas uma, que auxilio daremos a elas? E na participação delas nas atividades, atos e espaços?. São questões centrais a serem debatidas em nossa opinião. Não fazendo isso o MPL favorece um lado, o lado do agressor, fazendo com que muitas mulheres se afastassem da luta contra o aumento. Acreditamos na possibilidade de qualquer pessoa corrigir seu erros,  mas achamos que no momento atual a presença do ativista impede a participação de diversas mulheres, entre elas as agredidas. E nesse momento o movimento como um todo deve dar apoio e solidariedade a elas, e não ao agressor.

Por isso propomos a submissão do agressor a uma sanção pública debatida e organizada pelo movimento.

Nos posicionamos nesse debate e propomos essa resolução porque acreditamos que não é possível nenhuma luta sem combater internamente qualquer tipo de opressão. A esquerda deve combater atos de machismo em suas fileiras e dar apoio e solidariedade as agredidas, e não ao agressor.

Por último nós do PSTU queremos expressar aqui o nosso apoio a Rede de Coletivas Feministas Autônomas Contra o Aumento pelo seu corajoso ato, e prestar solidariedade, já que elas estão sofrendo acusações de todo tipo. Elas não estão sozinhas e muito menos isoladas, também estamos nessa luta contra o machismo!

Não nos calarão!

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