segunda-feira, 22 de agosto de 2011

Por Gabriel Casoni,
de Minas Gerais.
Os eventos dramáticos da crise econômica mundial se sucedem numa velocidade assustadora. A cada semana o mundo parece estar à beira do abismo. A vertigem causada pela imagem do precipício causa pânico e as bolsas desabam. Logo são anunciados os planos de ajustes para evitar a queda descontrolada. Um suspiro reanima os mercados.

Porém, o alívio é momentâneo. Nem bem a Grécia tinha saído dos noticiários, quando o teto da dívida americana ameaçou se tornar um calote sem precedentes na história mundial.

Entretanto, um dia após o acordo sobre a extensão dos limites do endividamento norte-americano, o temor frente aos dados negativos da economia americana e italiana derreteu as bolsas em todo mundo.

Com efeito, a tímida recuperação econômica ameaça virar uma nova recessão global. A turbulência econômica, por seu lado, contamina o cenário político-social levando a crises políticas graves. Por exemplo, a insatisfação popular com Obama e o enfretamento radicalizado entre republicanos e democratas expressam a crise do imperialismo norte-americano.

Por outro lado, o levante das massas européias contra os “planos de austeridade” e a crise das dívidas ameaçam a União Européia e a estabilidade das democracias ocidentais.

Mas não é só. As revoluções ao sul do velho continente seguem em momentos decisivos na guerra civil na Líbia, nos confrontos sangrentos na Síria e na persistência das mobilizações revolucionárias no Egito.

O terremoto econômico já é também uma crise política do imperialismo. As lutas da classe trabalhadora e as divisões na própria burguesia expressam a irresolução dos impasses. Em uma frase: a política passa a determinar a economia.

É preciso estar atento aos próximos passos da situação norte-americana e sua combinação com os desenlaces da crise européia. Muita coisa está em jogo.

A dívida e a crise americana
As coisas não vão nada bem para o imperialismo norte-americano. O impasse histórico em relação à elevação do teto da dívida foi expressão dos novos tempos de decadência.

Com a eclosão da crise econômica em 2007 houve um salto da dívida pública, que bateu o teto dos $ 14 trilhões de dólares. Os gastos com a guerra, a redução da arrecadação com os impostos e os planos bilionários de salvamento dos bancos cobraram a fatura. Em síntese, num contexto de atividade econômica deprimida, a capacidade de pagamento dos títulos da dívida foi posta em dúvida.

Com efeito, o país mais poderoso do planeta e emissor da moeda universal, se viu diante da ameaça de calote. O mundo parecia de cabeça para baixo. Um fato inimaginável estava ocorrendo. Mas a conjuntura econômica não poderia explicar tudo.

A crise no governo Obama
A força de Obama está abalada e esse elemento é parte central da explicação do impasse sobre a dívida. O governo tem o seu mais baixo nível de popularidade (apenas 40% de aprovação), resultado direto da gigantesca crise socioeconômica. Além disso, o governo não conseguiu cumprir nenhuma de suas promessas eleitorais.

As divisões no interior da burguesia americana se intensificam, enquanto que a insatisfação popular é recorde. O tamanho da crise e o enfraquecimento de Obama incidiram diretamente sobre a polêmica da dívida.

A maior potência global enfrenta dias difíceis. O sentimento de “mal-estar” toma conta dos norte-americanos. O desemprego beira os 10%, a queda na renda familiar é espetacular e o endividamento é generalizado. Os gastos bilionários com as guerras no Iraque e Afeganistão, que já atingem a fantástica cifra de $ 1,5 trilhão de dólares, persistem.

Já economia de conjunto patina com o recuo do PIB do 2° trimestre para 1,3%, enquanto que a expansão do 1º trimestre sofreu forte revisão para baixo, de 1,9% para 0,4%.

Por sua vez, a atividade industrial está estagnada e pode entrar em recessão. A indústria norte-americana atingiu em julho o pior nível desde o fim oficial da recessão no país, em meados de 2009. Segundo o ISM (instituto dos fornecedores americanos), a atividade manufatureira americana caiu para 50,9 pontos em julho, abaixo dos 50 significa retração.

As baixas taxas de lucro e a insegurança política inibem os investimentos produtivos. O endividamento familiar restringe a demanda de consumo. A crise européia torna o cenário ainda mais nebuloso. Portanto, tudo aponta para o aprofundamento da crise. A economia estadunidense parece caminhar para a recessão em um ano eleitoral (2012), intensificando assim a polarização e divisão da burguesia ianque.

A polarização do cenário político
A burguesia americana encontra-se dividida em face ao terremoto econômico. A radicalização no último período do enfrentamento entre republicanos e democratas foi o retrato das diferenças de como enfrentar a crise.

Surfando na queda da popularidade de Obama, a oposição conservadora impôs uma vitória no tocante à elevação do teto da dívida. Significativos cortes nos gastos públicos (de $ 920 bilhões de dólares) vão deprimir ainda mais a já combalida economia ianque. Ao mesmo tempo, a insatisfação popular com a situação do país deve se aprofundar com o crescimento do desemprego e da carestia.

Como conseqüência, os extremos políticos devem se fortalecer. Por um lado, o movimento de extrema direita Tea Party (ala fundamentalista dos republicanos) tende a aumentar ainda mais seu peso, por outro, o descontentamento popular e operário pode se traduzir em lutas sociais e políticas de maior envergadura. Em resumo, a tendência mais provável é o avanço da instabilidade político-social no contexto da mais grave crise econômica de 1929.

A crise européia
Passado o capítulo dramático da elevação do teto da dívida norte-americana, a Europa já voltou à cena novamente. Nesse momento a Itália e a Espanha ocupam o centro das preocupações. Com um endividamento representando 120% do PIB a Itália caminha para a bancarrota. Mas vai de mãos dadas com os espanhóis, que já não podem mais pagar os juros extorsivos da dívida pública. Os bancos europeus caminham para a solvência.

Porém, os magnatas do capital querem mais sangue. No mercado dos credit default swaps (seguros contra o risco de “calote”) relacionados com a dívida soberana, o risco para a Irlanda, Espanha, Itália e Portugal está em alta e já acima dos valores anteriores à crise americana. Novos pacotes de “austeridade” devem ser anunciados, os gastos públicos e sociais são os alvos.

Contudo, os trabalhadores e a juventude européias não se demonstram dispostos a pagar pela crise dos capitalistas. As massivas mobilizações dos “indignados” que tomam conta da Espanha e da Grécia são provas dessa afirmação.

Em resumo, a burguesia européia necessita impor um novo padrão de exploração para retomar um novo ciclo de crescimento a médio prazo. Dito de outro modo, é preciso destruir as conquistas sociais adquiridas e as médias salariais vigentes para aumentar a competitividade do bloco. Contudo, para viabilizar esse plano é preciso uma guerra social contra as massas trabalhadoras e a juventude. Na luta de classes está o futuro da situação européia.

A crise do imperialismo
A situação mundial precipita gravemente numa espiral de instabilidade crescente. A economia global está a poucos passos de uma nova recessão. Os instrumentos do imperialismo utilizados em 2008 para conter o naufrágio dão sinais de esgotamento: os estados nacionais endividados flertam com o calote. Os investimentos privados (calcados na taxa média de lucro), não se recuperam. Um novo momento de quebra de bancos pode acorrer.

Mas não para por aí. Uma segunda diferença significativa em relação a 2008 é o quadro político. Nesse momento os países imperialistas se vêem envoltos em significativas crises políticas. O maior exemplo é o enfraquecimento de Obama e a “guerra” entre republicanos e democratas. Outra expressão é o profundo desgaste das democracias burguesas e dos partidos tradicionais na Europa.

Há um terceiro aspecto da situação internacional distinto do início da crise em 2007: as lutas da classe trabalhadora. Nesse momento há uma revolta social na periferia da Europa que coloca em xeque os planos de austeridade. Ao mesmo tempo, a revolução árabe segue em curso numa região geopoliticamente estratégica para o imperialismo. A guerra civil na Líbia e os confrontos sangrentos da Síria seguem em curso em batalhas decisivas.

Os elementos atuais da situação internacional compõem um quadro de extrema instabilidade política, declínio econômico e ascenso de massas. O imperialismo tem dias difíceis pela frente, o horizonte é sombrio.

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