terça-feira, 10 de janeiro de 2012

Janeiro de tragédias: nada deve parecer natural

Por Bruna Toledo, estudante de direito da UFMG e militante da Juventude do PSTU de BH.

Começa o ano e novamente somos bombardeados pelas notícias dos desastres, catástrofes e destruição causados pela chuva. Em Minas Gerais no total, 157 municípios foram atingidos pelas tempestades durante o período,subiu para 116 o número de municípios em situação de emergência,  afetando mais de 2,2 milhões de pessoas. Destas, 12.875 pessoas estão desalojadas e outras 1.204 estão desabrigadas. Pelo menos 15 pessoas já morreram.

A saída mais fácil dos governos (Dilma, Anastasia e Lacerda) é apontar um fenômeno natural como o grande culpado por essa tragédia. Porém, é necessária uma reflexão sobre isso.

Dentro do sistema capitalista as cidades não são apenas um espaço onde as pessoas se instalam. Muito pelo contrário, a cidade é um espaço de produção e reprodução do capital. É um espaço físico mas é também um espaço de relações sociais e econômicas e correlação de forças entre as classes e seus setores, isso determina aonde os ricos e aonde os trabalhadores irão morar (certamente não serão vizinhos),  o investimento na infraestrutura da cidade e as regiões onde serão aplicados estes investimentos, aonde ficam as escolas dos filhos dos ricos e dos filhos dos trabalhadores,  qual região da cidade sofrerá com a falta de saneamento básico, quais serão mais atingidas pelas enchentes e desmoronamentos e quem estará vivendo lá etc.

Tudo que ocorre dentro das cidades está diretamente relacionado com como ela é governada e com as prioridades de seus governantes. Dessa forma, nada ocorre ao caso ou porque tinha que ocorrer. A violência, a falta de moradia, a baixa escolaridade, o aumento da tarifa de ônibus, o desemprego etc são consequências de como se organiza a nossa sociedade, assim como os desastres naturais e  principalmente quem será atingido por eles.

Para além das medidas paliativas que devem ser adotadas é necessário se discutir com seriedade e urgência a questão estrutural das cidades e sua lógica de segregação sócio-espacial, onde os ricos se concentram em áreas que tem a renda da terra bastante elevada e onde há investimento real dos governos e os pobres são cada vez mais periferizados, amontoados em morros e áreas de risco  onde não recebem investimento dos governos, são enganados pela farsa que é a política habitacional do nosso país, periodicamente sofrem com as chuvas e ainda por cima são culpados por sua tragédia.

A questão habitacional é um problema que se arrasta no nosso país, entra governo e sai governo e nada é feito, são milhares de famílias sem teto, a única saída que essas famílias encontram é a autoconstrução de suas casas em morros, constituindo assim as favelas, e mais uma vez a saída individual para um problema social do nosso país é saudada pelos governos, que foram complacentes durantes décadas com o surgimento dos aglomerados e favelas, só se pronunciam quando essas mesmas casas desmoronam ou são inundadas pelas chuvas, é aí a culpa é da família que não deveria estar lá.

As favelas e aglomerados são hoje apontados em todos os cantos do país como os grandes responsáveis por todas as mazelas ocorridas nas cidades, são os grandes culpados pelos desmoronamentos e acidentes derivados das chuvas (porque não deviam morar ali), da violência urbana, do tráfico de drogas, da evasão escolar, da prostituição etc etc etc. Porém o que não é falado é que o nosso país cresce as custas dessa população pobre. É necessário que uma parte (grande) dos trabalhadores seja privada do emprego, da moradia digna, do acesso aos serviços públicos para que as elites explorem a outra parte dos trabalhadores (com a retirada dos seus direitos trabalhistas, com arrocho salarial, desigualdade nos salários de homens e mulheres etc) sem que estes possam se posicionar ( pelo medo de perder o emprego sustentado no fato de existirem milhares de pessoas para ocupar o seu lugar) e garanta seus lucros exorbitantes. Partindo desse ponto de vista podemos entender que o que acontece na realidade é que a violência, prostituição, baixa escolaridade das crianças e as próprias favelas em si são consequências nefastas da ganância da classe dominante.

As chuvas são naturais, pessoas morando em aglomerados, encostas de morros, nas beiras de córregos e rios poluídos não é natural. Isso é uma imposição das elites governantes, para manter seu altíssimo padrão de vida e a continuidade do sistema capitalista que se baseia na exploração do homem pelo homem.

As chuvas são um fenômeno natural, a miséria e falta de moradia não. E cabe aos trabalhadores, à juventude e todas as população pobre que é cotidianamente submetida a toda essa injustiça se organizar para desnaturalizar a existência da desigualdade social.

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