domingo, 19 de fevereiro de 2012

A mobilização já abriu as cortinas que escondiam os problemas. Agora, os estudantes querem ir a fundo para derrubar o aumento abusivo e mudar os rumos da universidade construindo um movimento estudantil independente, democrático e combativo que reúna todos os setores dispostos a lutar pelos nossos direitos.

Por Diego Franco David - Estudante de Jornalismo da PUC Minas. Militante da juventude do PSTU. Integrante do Coletivo Há Quem Sambe Diferente e membro da Comissão Executiva Estadual da ANEL-MG.








Em Belo Horizonte, Minas Gerais, os estudantes da Pontifícia Universidade Católica – Unidade São Gabriel – estão, desde a última quarta-feira, com as aulas paralisadas contra o novo aumento das mensalidades. Como sempre, o reajuste de 9,8% (50,76% acima da inflação) foi imposto pela reitoria sem qualquer diálogo com o corpo discente. Dois grandes atos já aconteceram no turno da noite, nos últimos dias 15 e 16. Mais de 600 estudantes de diversos cursos participaram das marchas que ficaram conhecidas como o bloco carnavalesco de protesto “Eu Sambo Contra o Aumento”. Na PUC, há vários anos que não se via estudantes manifestando-se com tanta indignação e disposição de luta. Os protestos foram organizados pelas entidades que compõem o coletivo Há Quem Sambe Diferente, do qual a ANEL forma parte ativa ao lado dos DA’s de Psicologia, Direito e Comunicação Integrada, além do coletivo Juntos.

15/02 - Em assembleia, mais de 500 estudantes da
PUC Minas São Gabriel decidem paralisar as aulas
Uma luta que está começando com muita garra
Na quinta-feira (16), após realizarem assembléia ocupando o prédio da pró-reitoria, os estudantes decidiram bloquear o Anel Rodoviário, um dos principais meios de circulação das mercadorias que entram a saem da cidade. O trancamento durou quase uma hora, com centenas de alunos denunciando os problemas gerados pelo aumento das mensalidades.

Na última sexta-feira (17) no turno da manhã, uma nova mobilização reuniu mais 200 manifestantes que decidiram se somar à paralisação das aulas. Por volta das 11h o prédio da pró-reitoria foi novamente ocupado para exigir a presença do Pró-Reitor e iniciar uma negociação pela imediata revogação do reajuste, como pauta prioritária, mas exigindo também a realização de obras para melhorar a infra-estrutura dos prédios, o aumento dos valores das bolsas de monitoria, extensão e pesquisa, a imediata rematrícula de todos os estudantes que foram desligados da universidade por inadimplência e a completa abertura das obscuras contas da PUC, para que todo estudante possa ter livre acesso ao que é feito com o seu dinheiro.

17/02 - Estudantes marcham por toda a
PUC convocando a paralisação das aulas.
“PUC mercenária! Chega de bancar a humanitária!”
O novo aumento das mensalidades é um enorme ataque para a maioria dos estudantes. Muitos trabalham e estudam ao mesmo tempo para pagar a universidade e ainda ajudar nas despesas da família. Nem todos podem contar com empregos que paguem o suficiente para se manter na universidade. Os estagiários, que em geral trabalham tanto quanto qualquer profissional, mas recebem salários extremamente baixos, tem muita dificuldade para escapar da inadimplência. As estudantes mulheres em geral são as mais afetadas, pois muitas são mães e além da faculdade ainda tem despesas com creche e transporte escolar para as crianças.

Um aumento sem qualquer justificativa além do lucro fácil
Nos últimos tempos, a reitoria não realizou nenhuma melhoria significativa que justifique um aumento tão grande. Muito pelo contrário... O que tem feito é avançar na precarização do ensino, implantando a educação à distância, superlotando salas, fechando cursos “não-lucrativos” (como foi o caso da Letras no São Gabriel) e não investindo nas bibliotecas e na infraestrutura das salas, prédios e laboratórios.

Boa parte os funcionários da PUC sofre com o regime de terceirização (que precariza as condições de trabalho e salário)  e os trabalhadores efetivos (tanto da administração, quanto do corpo docente) são muito mal pagos.

Desde que o Governo Lula passou a implantar o PROUNI (Programa Universidade Para Todos), que financia vagas em universidades privadas usando dinheiro público que poderia ser usado para investir pesado na expansão das universidades públicas, a PUC vem cortando drasticamente a oferta de bolsas de estudo.

Não são raros os casos de alunos e alunas que se vêem forçados a se endividar com familiares, amigos ou programas de financiamento (como FIES, Crédito Pra Valer, etc) para poder se manter na universidade. Sem acesso a qualquer tipo à assistência estudantil eficiente, não raro chegam à situação limite de ter que abandonar a formação acadêmica devido à alta inadimplência.

Os estudantes não têm acesso a praticamente nenhuma ajuda da universidade para darem conta do cotidiano da vida acadêmica. Não são oferecidas cotas de impressão, auxílio alimentação ou qualquer coisa do gênero. E além disso, recentemente as passagens dos ônibus da região metropolitana aumentou, encarecendo mais ainda as despesas diárias dos estudantes.

A PUC Minas, nos últimos anos acumulou enormes lucros. Abriu novos cursos e vem se consolidando como uma das instituições privadas que lideram o mercado mineiro de ensino superior. Em campanhas publicitárias, se orgulha em exibir a boa pontuação dos seus alunos em programas de avaliação do MEC. Em contrapartida, esses mesmos alunos se vêem reféns da ganância dos administradores da instituição, que explora (valendo-se de título irônico de “entidade filantrópica”) um direito básico de todo ser humano: o acesso à educação.

Portanto, a luta na PUC Minas não é apenas uma luta econômica e imediata contra a carestia das mensalidades. Trata-se de uma luta maior, em defesa do direito à educação. Precisa avançar para que se torne uma luta por outro sistema educacional. Todos temos que lutar pelo direito à educação pública, gratuita, laica e de qualidade. Seguindo o exemplo dos jovens chilenos, nós precisamos ter em mente que as universidades do nosso país precisam estar à serviço da juventude e dos trabalhadores, que produzem toda a riqueza e o conhecimento que hoje sustenta os lucros dos empresários do ensino privado e de demais setores da economia.

ANEL convoca o movimento estudantil a apoiar
a resistência contra o aumento das mensalidades
Nós da ANEL, defendemos que todos que se formem no ensino médio tenham acesso à universidade pública. Assim como também achamos que todos os estudantes da PUC e de todas as demais instituições privadas deveriam estar matriculados em instituições públicas. Mas Isso só poderia ser possível se existisse mais investimento em educação. É por essa razão que temos lutado nacionalmente, ao lado de vários outros setores do movimento estudantil e docente, como o ANDES (Sindicato Nacional de Docentes do Ensino Superior) pelo imediato investimento de 10% do Produto Interno Bruto (PIB) na educação pública e contra o novo Plano Nacional da Educação (PNE) do governo Dilma, que representa um pacote de ataques à qualidade do ensino. O novo PNE cristaliza como política de Estado uma série de medidas precarizantes, como é o caso do REUNI (programa do governo para as universidades públicas que aumenta o número de vagas, porém sem aumentar suficientemente o investimento em infraestrutura, contratação de professores, assistência estudantil etc).  

Para vencer, é preciso fortalecer e expandir a luta!
Todos estamos muito empolgados com as grandes manifestações que fizemos até agora. Estamos provando que com organização e unidade é possível interferir nos acontecimentos da universidade, por mais que a reitoria não goste nada de ver isso acontecendo.

Entretanto, para que a nossa luta avance é preciso fortalecê-la e expandi-la! Por isso, nesta última sexta, no horário do intervalo da noite, os estudantes se reuniram em assembléia na portaria principal da universidade para discutir como fazer isso.

Foi decidido ampliar a mobilização para que os estudantes das outras unidades da PUC, principalmente os da PUC Coreu (onde é sediada a REI-toria), possam se somar à luta para obrigar os gestores da instituição a ouvir nossas reivindicações e revogar o aumento das mensalidades.

No dia 1 de Março está programada uma grande manifestação na PUC Coreu. É preciso que todos se esforcem para estar presentes e que ajudem na mobilização, passando em sala junto com o a ANEL e o Coletivo Há Quem Sambe Diferente, divulgando todos os conteúdos que temos produzido pelo Facebook e buscando o apoio do máximo de organizações e coletivos estudantis que forem possíveis. Vamos em frente, pois a luta apenas começou!

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