sexta-feira, 20 de abril de 2012

Um convite para o debate fraterno e respeitoso com a juventude militante


por Francisco Mata Machado Tavares (Franck) – Cientista Político e professor da Universidade Federal de Goiás.



A juventude da cidade de Goiânia procedeu a um belíssimo passo para além do que alguns críticos chamariam de Slacktivism – a política acomodada e estéril presa à internet e suas redes sociais. Na ensolarada manhã de 14 de abril de 2012, milhares de pessoas, a imensa maioria das quais estudantes, realizaram um protesto pacífico contra o Governo de Marconi Perillo, enredado, segundo a Revista Carta Capital, em uma trama criminosa que sequestrou o Poder Público em Goiás, onde a população trabalhadora se revela crescentemente indignada com a negação de acesso a direitos, com os sucessivos casos de violência policial, com uma política educacional desastrosa e com práticas como a privatização por via oblíqua do sistema de saúde, por meio da tentativa de se conceder a rede hospitalar às organizações sociais. O exemplo de coragem, de seriedade política e de organização dos jovens goianienses certamente contribuirá para a democratização de uma unidade federativa hoje entregue ao que há de mais arcaico e autoritário na política nacional.

Há, contudo, um aspecto dos protestos de 14 de abril que, fraternal e democraticamente, enseja ponderações. Trata-se do fato de que, no decorrer do ato público, ativistas de partidos de esquerda, como o PSOL e o PSTU, tiveram as respectivas falas cassadas e, quando tentaram expressar seu apoio ao movimento, foram peremptoriamente vaiados. É justo e compreensível que os jovens crescidos na década de 90, desapontados em âmbito global com as mentiras da social-democracia e do stalinismo e vitimados localmente pela traição petista, desconfiem dos partidos. Cada alto dirigente do PT  que alimenta aquele aparato burocratizado e financiado pelos piores mafiocratas da nação é responsável, diante do tribunal da história, pelo desapontamento do ativismo juvenil em relação à atuação partidária. 
Não parece seguir desta premissa, contudo, a correção moral e política da censura aos militantes de partidos e à defesa pública das respectivas ideias.

Não se quer, nestas linhas, afirmar-se uma longa crítica aos jovens que hoje calaram a expressão dos militantes filiados a agremiações partidárias. Tampouco é objetivo deste texto propor um longo arrazoado teórico que procuraria discutir os partidos anti-regime, de Luxemburgo a Balibar, de Lenin a Negri; ou a teoria política sobre partidos institucionais, de Olavo Brasil a Ranulfo, de Wolinetz a Ware, ou de Katz & Mair a Gunther & Diamond. Não! O que se intenciona, aqui, é uma proposta bem mais simples e modesta. Objetiva-se conhecer as razões que levam alguns jovens a rechaçarem tão veementemente todos os partidos políticos, como se fossem iguais entre si e igualmente abjetos. Assim, dirige-se à juventude que hoje calou os militantes partidários, como os apoiadores do governo de Goiás querem calar a imprensa, as seguintes perguntas, como meio de iniciar um horizontal e respeitoso debate:

1 - Se os partidos são, todos, inimigos da democracia, da liberdade e da auto-organização, por qual razão todas as ditaduras, sem exceção, impediram a livre organização partidária e não aceitaram a existência de agremiações trotskistas ou democrático-socialistas? Quem, na história da humanidade, além das ditaduras mais truculentas já conhecidas – como o stalinismo, o fascismo e os regimes autoritários da América Latina – já impediu o direito de expressão pública de partidos trotskistas (como o PSTU e parte significativa do PSOL)? É esta vossa fonte de inspiração?

2 - Em um protesto contra o governo do Estado que se revela realmente democrático, não deveriam ser ouvidas todas as vozes que se opõem ao referido governo? Quem decide (e com que legitimidade o faz) que uma parte das pessoas aderentes à mesma causa – os ativistas de partidos contrários a Perillo – deve ser silenciada e censurada?

3 - Seriam os jovens realmente tão ingênuos, fracos e volúveis, de modo que a simples concessão do direito de livre expressão aos partidos políticos os tornaria presas fáceis de processos de cooptação ou de instrumentalização?

4 - Uma ONG financiada por empresários e pelo Estado é mais legítima do que um partido custeado apenas por contribuições voluntárias dos respectivos militantes e simpatizantes?

5 - Apenas individualidades devem se expressar politicamente, de modo que partidos, movimentos sociais, sindicatos e organizações revolucionárias devem ser banidos da política? Não é o liberalismo extremo, hoje reinante no mundo em que estamos, quem propõe esta noção filosófica hiper-individualista e caótica da sociedade? Em que se diferenciam aqueles que entendem que o indivíduo é a unidade última e soberana da sociedade política em relação à prática e à teoria de grandes banqueiros e governantes?

6 - Se toda forma de organização coletiva é opressora e se toda decisão decorrente de voto é ilegítima, como garantirmos que atos de protesto não incorram em uma cacofonia de dezenas de microfones falando ao mesmo tempo (como no dia 14 de abril em Goiânia...) e na babelização da política, em que ninguém quer ouvir e todos querem falar apenas para alimentar os próprios impulsos catárticos individuais?

7 - Como podemos viver em sociedade sem entendermos que há o outro e que, constatada a alteridade, precisamos organizar o tempo da fala, a tática da ação coletiva e a estratégia dos nossos projetos comuns, sob pena de incorrermos em uma histeria sem um dia seguinte histórico?

8 - Quando, na história da modernidade, grandes transformações sociais encontraram longevidade quando se iniciaram cerceando a liberdade de expressão e de participação dos militantes de partidos que apoiavam as causas insurgentes?

9 - Há ao menos um argumento contra os partidos políticos que se aplique às agremiações auto-financiadas e não orientadas prioritariamente à vitória eleitoral (disputam eleições apenas para apresentar as suas ideias, mas não para mudar o mundo por meio das urnas), como é o caso do PSTU, do PCB, de muitas correntes do PSOL e do PCR, para limitar a questão a exemplos brasileiros?

Com toda a admiração aos movimentos de protesto organizados pela juventude e com todo o respeito àqueles que optam por não se juntar a partidos, movimentos sociais e sindicatos, entende-se que a resposta às questões acima – todas elas – é indispensável para que se diferencie, caso seja possível, a censura e a cassação aos ativistas partidários trotskistas e socialistas-democráticos que, honestamente, aderem a causas coletivas, dos atos de perseguição que estes mesmos grupos têm sofrido, ao longo da história, sob o jugo das piores ditaduras. Enfim, não integrar um partido é um direito sagrado. Censurar-lhe, contudo, pode ser um erro fatal, com precedente histórico apenas nos mais nefastos regimes já experimentados!

Goiânia, 14 de abril de 2012

Um comentário:

  1. Muito bom o texto! Divulguem ele mais, toda e qualquer contribuição ao debate do "ser ou não ser partidarista" é válida, e esse texto aí diz muito em poucas palavras!

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