quinta-feira, 14 de fevereiro de 2013

O novo carnaval de rua coloca a PBH contra a parede

Por Rubens Aredes, mestrando em Música pela UFMG e militante da Juventude do PSTU BH

O famoso bloco "Então Brilha!". Foto: Flávia Mafra.

Há cerca de cinco anos, o carnaval de Belo Horizonte vem aparecendo, crescendo e ganhando cada vez mais a praças e as ruas da cidade. Isso vem ocorrendo por que jovens se enfrentam com uma prefeitura autoritária para construir um carnaval alegre, colorido e claramente de oposição às políticas da administração do prefeito Márcio Lacerda.

A política de Márcio Lacerda é caracterizada por ser higienista e privatista do espaço público. A prefeitura se prepara para a copa do mundo, fazendo remoção de casas, uma contrarreforma urbana que expulsa a pobreza cada vez mais para as periferias. Lacerda privatiza ruas, cerca e põe catracas em praças, priva a população do direito de ir e vir e criminaliza a pobreza. Márcio Lacerda não governa para a maioria da população, os trabalhadores e a juventude, mas sim para a um grupo restrito de pessoas: a elite que financia suas campanhas eleitorais. Lacerda governa para os ricos.

Mas a primavera do carnaval de BH vem mostrar que a população, em especial a juventude e os setores mais ligados à atividade cultural da cidade, não se submetem a essa prefeitura elitista. Enfrentando a prefeitura e a truculência policial, o carnaval de rua em BH cresceu. O número de blocos aumentou e o número de foliões nas ruas também. É a resistência da população e da juventude fazendo valer sua vontade sobre a vontade da prefeitura.

Problemas estruturais: a prefeitura não poderá mais ignorar o nosso carnaval

Apesar de a Belotur, em 2013, ter intermediado a relação dos blocos com a polícia militar, bhtrans, SLU e serviços de banheiro químico, ficou clara a existência de um boicote do poder público à festa da população. Blocos tiveram que alterar o percurso planejado devido ao fato de a bhtrans não viabilizar o trânsito. Foi o caso do Bloco ‘Então, Brilha!’, que saiu da Rua Guaicurus no sábado pela manhã.

A falta de serviços de segurança colocava em risco a integridade dos foliões nas madrugadas dos bairros Santa Efigênia e Santa Tereza, apesar de a polícia militar, em entrevista ao G1, afirmar não haver nenhum registro de brigas ou problemas. Também faltaram postos de atendimento médico. A falta de banheiros químicos transformou os bairros Santa Tereza, Santa Efigênia e Savassi em grandes banheiros públicos a céu aberto, deixando as ruas com um cheiro insuportável e sem coleta de lixo.

O som dos milhares de foliões no Bairro Santa Tereza, na Praça Ernesto Fassini, Santa Tereza, levou a polícia militar intervir, pra fazer valer o silêncio após as 22h. A intervenção da polícia na folia foi truculência e, como se vê num vídeo que circula na internet, verifica-se a polícia agredindo fisicamente e moralmente os foliões. Isso deixou claro que a polícia militar serve para reprimir a juventude e os trabalhadores e não para garantir a segurança dos mesmos.

Bloco da Praia da Estação: "Ei, polícia, a praia é uma delícia!". Foto de Flora Rajão.

Carnaval independente e de lutas

Para além da beleza e alegria contagiante, parabenizamos os blocos de rua pelo princípio da independência financeira. Boa parte dos blocos garantiu a sua independência política com independência financeira. ‘Vaquinhas’ e diversas campanhas financeiras foram realizadas pelos blocos para garantir o seu autofinanciamento. Esse fato muito nos emociona, pois, compartilhamos do princípio da independência política e financeira. É dessa mesma forma que financiamos o nosso partido e é essa a forma que defendemos a construção de organismos e entidades da classe trabalhadora e da juventude para sua luta contra os governos e o capital.
O grupo Bombos de Iroko levou Maracatu às ruas do bairro Sta. Tereza

Ainda nos sentimos muito orgulhosos de nossos militantes terem participado da folia durante todos os dias de carnaval e de ter contribuído com a programação dos foliões. Esse ano, o núcleo de cultura do PSTU, junto com amigos e pessoas maravilhosas que encontramos, lançou o grupo percussivo Bombos de Iroko, que fez seu ensaio na segunda de carnaval, e se apresentou na quarta de cinzas no Bairro Santa Tereza. Com referências no Maracatu de Baque Virado da Nação Estrela Brilhante do Recife, Clayton Santos, pesquisador da cultura popular, organizador do grupo e militante do PSTU, além de cantar loas e reger os batuqueiros, fez várias declarações aos foliões, esclarecendo que as Nações de Maracatu, antes de se tornarem agremiações carnavalescas, eram historicamente formas de organização para a luta e resistência dos negros. Assim, além  de celebrar a festa momesca, o mestre da bateria dos Bombos de Iroko atualizou e reivindicou a necessidade da luta contra o racismo, as opressões e a construção de uma nova sociedade. Uma sociedade socialista!

Bombos de Iroko
Mesmo sem o apoio real da prefeitura e sem a estrutura adequada que o poder público deveria fornecer, um importante setor da juventude da cidade organizou diversos blocos e chamou boa parte da população para ocupar as praças e as ruas. Nós do PSTU apostamos nessa juventude e achamos que ela está em sintonia com a juventude no mundo todo que no ano passado realizou o Occupy Wall Street, ocupou praças na Europa contra as medidas de austeridade dos governos europeus, ocupou a Praça Tahrir, no Egito, fazendo uma revolução que derrubou a ditadura de Mubarak; uma juventude que hoje pega em armas na Síria pra fazer uma revolução contra o regime genocida de Bashar Al Assad, que está em greve estudantil no Estado Espanhol contra a reforma geral da educação do governo de Mariano Rajoy.  A esta juventude de BH, declaramos todo o nosso apoio e damos os nossos parabéns!

O Carnaval de rua de BH é uma conquista. É preciso ampliar essas conquistas. Exigimos que a prefeitura de Márcio Lacerda forneça, para 2014, toda a estrutura necessária para a folia da população. Banheiros químicos em quantidade suficiente nos locais de folia; espaços adequados para a folia após 22h, sem truculência da polícia; postos de atendimento médico; ônibus de madrugada; bhtrans organizando o trânsito conforme o percurso dos blocos, e toda a estrutura necessária para a realização da festa pelos blocos e pela população que já mostrou que quer tomar as praças e ruas.

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