domingo, 5 de maio de 2013

Eu apoio a casa amarela!

Por Jessé Duarte,
Ator e diretor de teatro, membro do grupo de maracatu Bombos de Iroko e militante do núcleo de Cultura do PSTU de Belo Horizonte.










O Coletivo Casa Amarela é formado por jovens, negros, mulheres e homens impulsionados por um sonho: Tornar a periferia um lugar melhor para se viver. Contrariando as estatísticas, estes jovens não estão no tráfico de drogas, na prostituição ou envolvidos em problemas gerados pelo próprio sistema que cada vez mais empurra o jovem da periferia para a marginalidade. Prova disso é o que está acontecendo neste exato momento.


Há um ano esse coletivo ocupa uma casa que se encontrava depredada, que servia para o acúmulo de lixo e proliferação de doenças: a Casa Amarela.  Um espaço público construído inicialmente para prestar serviços de assistência social à comunidade do São Matheus em Contagem (MG). O fato é que essa casa nunca teve funcionários, nunca funcionou como deveria e foi ao longo dos tempos materializando o descaso do próprio poder público. As paredes, portas e vidros que se encontravam quebrados eram apenas a expressão deste descaso e do abandono histórico sofrido contra o povo da periferia.  O espaço que deveria ser a porta de entrada para projetos culturais e de formação pra comunidade foi deixado às moscas. Transformado apenas numa fachada utilizada para garantir mais votos, através do gasto indireto do dinheiro público para favorecer as campanhas eleitoreiras milionárias.

Foi neste espaço que se consolidou o Coletivo Casa Amarela. Sem nenhuma estrutura, esses jovens começaram a desenvolver atividades culturais, impulsionadas pela linguagem resistente do hip-hop, tais como: Duelos de MCs, oficinas de rap, saraus de poesias e apresentações culturais diversas com a participação de grupos de dentro e fora da comunidade. Além de manter o espaço vivo, o coletivo garantiu um calendário de atividades permanente e com intercâmbio de linguagens, promovendo o acesso para a população e a troca de experiência entre os artistas locais.

Como resultado dessas ações, no final do ano passado a prefeitura revitalizou a casa, curiosamente e novamente, em período eleitoral. Depois disso, a casa continuou fechada e outra vez poderia passar pelo mesmo processo de descaso. Mais uma vez a intransigência do poder público em relação à periferia poderia levar a história a se repetir. No entanto o coletivo não ficou de braços cruzados, continuou as atividades mantendo a casa viva e em permanente dialogo com a comunidade.

Apresentação do grupo de maracatu Bombos de Iroko na Casa Amarela.
Neste mês de comemoração de um ano de atividades, eis que chega o presente da prefeitura: recolheram as chaves do espaço e informaram que não será mais permitido a sua utilização por falta de funcionários. Querem calar o Coletivo Casa Amarela. Os pedidos para utilização do espaço, só serão aceitos se forem feitos por ONG's ou entidades regularizadas. Contraditoriamente ao discurso da prefeitura, o que se viu durante o ano de ocupação, foi que a ação direta de jovens da comunidade sem apoio, registro ou funcionários garantiu um cuidado com a casa, e mais, a sua revitalização e o funcionamento com atividades culturais.
A nova gestão da prefeitura iniciou o ano dando andamento aos projetos mercadológicos colocados na pauta do dia pela antiga Prefeita Maria Campos (PT). Carlin Moura (PCdoB), novo prefeito, deu continuidade a Fundac - Fundação Cultural do Município de Contagem - que já está funcionando com mais de 60 funcionários alocados a partir de desvio de função ou contratados  por meio de cargos nomeados, ou seja, sem concurso público.

Esses cargos também são utilizados para privilegiar os apoios realizados na campanha eleitoral. Sem nem um critério claro, os poucos recursos que temos para cultura vão sendo utilizados para gerir crise. A crise que se coloca é o aprofundamento de uma politica que visa tornar a cultura e a arte mais um artigo de consumo; uma mercadoria cara destinada a quem pode pagar por ela. Se hoje desejam fechar a Casa Amarela talvez seja porque suas ações caminham na contramão desta lógica mercantil e pelo fato de que a FUNDAC e a prefeitura não a reconhecem como espaço cultural legítimo.

O critério estabelecido para utilização do espaço (autorização para ONGs ou instituições formalizadas) abre a possibilidade para privilegiar organizações de pessoas ligadas a própria prefeitura. Na antiga gestão chegamos e ver que a maioria dos vereadores da cidade mantinham também várias ONGs espelhadas pelas periferias. São essas ONGs que geralmente ganham os editais de licitação e em época de eleição são utilizadas para angariar votos para os corruptos de plantão.

A ação da casa amarela vai muito além. É resultado de uma luta e gera um avanço de consciência na juventude da periferia, por isso querem calar e forçar a institucionalização do movimento e sua burocratização. Aliás, esta é uma característica bem forte do PCdoB: a burocratização dos movimentos. Fazem isso nos sindicatos e por todos os lugares por onde passam. Por que não iriam fazer isso com a própria cidade, já que possuem o controle da prefeitura?

Mais do que momento de comemoração de um ano de resistência, é também o momento de fortalecer a luta. A luta de manter viva uma manifestação cultural legítima, um espaço conquistado e criado na resistência. O momento é de não nos calar novamente. Ações como as do Coletivo Casa Amarela começam aos poucos a nos mostrar que a periferia tem voz e terá que ser ouvida e respeitada.

Respeite a Casa Amarela!


>> Todo apoio ao Coletivo Casa Amarela!
>> Chega de esperar, chega de migalhas, cultura já!
>> Abaixo a ingerência cultural da prefeitura de Contagem, o descaso com a periferia!
>> Cultura não é mercadoria, é um direito que deve ser garantido e assegurado com dinheiro público!

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