sábado, 22 de junho de 2013

Desci na estação errada (ou: sobre o 20-J de Goiânia)

por Francisco Mata Machado Tavares (Franck) – Cientista Político e professor da Universidade Federal de Goiás.

O excesso de trabalho nos últimos dias deve mesmo ter comprometido a minha concentração. Ontem, por exemplo, peguei um ônibus (pagando a abusiva tarifa de R$ 2,70) com destino a Maio de 1968 e, incauto, creio ter desembarcado na estação da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. A história desse curioso itinerário, permitam-me a digressão, inicia-se bem antes, vinte anos atrás. Peço a paciência de vocês para contar um pouco do que vivi e, em seguida, narrar o que se deu na cidade de Goiânia em 20 de junho de 2013.

Corria o ano de 1993 e eu tinha quatorze anos de idade. Àquela época, eu atuava na juventude do PT e participava do grêmio estudantil da minha escola. No mês de novembro fui designado por meus colegas como delegado ao Congresso da UBES, que teria lugar em São Paulo. Integrei o grupo de apoiadores da "oposição unificada", a reunir um amplo leque de estidantes contra a direção majoritária da entidade, composta pelo MR8/PMDB. O Congresso foi tenso. Dirigentes do MR8 roubaram os documentos meus e da minha irmã, de modo que não pudéssemos obter nossas credenciais para votação na plenária final. Ademais, tentaram invadir o nosso alojamento, despertando uma tensão que, com aquela idade, eu ainda não vivera. Finalmente, em um confronto direto, um deles saltou de um palanque em direção à minha cabeça e tudo de que me lembro é do momento eu que acordei, atordoado, na enfermaria do Anhembi. Um ano apó s, em 1994, disputamos eleições para o grêmio, precisamente contra uma chapa liderada por um dirigente da juventude secundarista do MR8. Vencemos. Passaram-se mais alguns meses e, certo dia, o tal militante stalinista, chamado Ricardinho, telefonou para a minha casa. Estranhei um telefonema de alguém que estivera por trás do roubo dos meus documentos pessoais e de uma virulenta agressão física que sofri. O assunto, todavia, era um só: precisávamos nos unir e organizarmos a adesão dos estudantes do nosso colégio à passeata contra a privatização da Vale do Rio Doce. Ele, na campanha do Quércia. Eu, pedindo votos para Lula. Fizemos algumas reuniões, nos entendemos e, dias após, estávamos lá, ombro a ombro, na avenida Afonso Pena, a minha bandeira vermelha com uma estrela, a bandeira azul dele com a sigla MR8. Ele aplaudiu o Dutra, do PT, porque deve ter concordado com o discurso daquele dirigente. Eu aplaudi o Guilherme Tel, do MR8, porque me senti representa do por suas palavras naquele específico contexto. O tempo passou e muita coisa mudou. Continuei nas lutas sociais e, por coerência, deixei o PT, que considero um rendido partido da ordem. Algumas lições daquele dia, entretanto, parecem-me ainda relevantes para o presente.

Goiânia, maio de 2013. Os jovens da cidade iniciam uma onda de protestos contra o aumento das tarifas de transporte coletivo, reajustadas de modo ilegal e abusivo pelo prefeito do PT que, como sói nos governos desse partido, se recusa a receber manifestantes ou a discutir democraticamente os rumos da cidade. Em alucinante novilíngua, o petista espalha pela cidade grandes placas com os seguintes dizeres "3 Viadutos de Concreto Armado: isso é desenvolvimento sustentável!". Fui informado sobre o primeiro protesto da pior maneira possível. Acabara de lecionar na UFG, voltava para casa concentrado em minha tese de doutorado cuja defesa ocorreria em dois dias e toca o meu telefone: "professor Franck, precisamos, com urgência, que venhas ao terminal Campinas. A polícia reprimiu nosso protesto, tem gente presa e muitas pessoas feridas". Cheguei lá e o cenário era desolador. Vi os meus melhores e mais disciplinad os alunos mancando, feridos, assustadíssimos. Ninguém sabia onde estavam os presos. Iniciei um périplo por Distritos Policiais, enquanto minha companheira, Ana, telefonava para delegacias em busca de informações. Em meio àqueles manifestantes, identifiquei independentes apartidários, ativistas do PSTU, do PSOL, do PCB, anarquistas e integrantes de outros movimentos regionais. Todos juntos, contra o aumento que o governo do PT, em conluio com empresários e com a força armada de sua aliada polícia do PSDB, tentava impor. Houve outros protestos naquele mês e no início de junho. Em um deles, de noite, no terminal da Praça da Bíblia, as coisas ficaram muito sérias. A PM de Marconi Perilo (PSDB), para aquietar a luta contra o reajuste imposto por Paulo Garcia (PT), reprimiu com imoderada violência os jovens manifestantes. Foi uma noite de terror em Goiânia. No último protesto antes da revogação do aumento ainda houve alguma repressão e, como sempre, nenhum rep resentante, de nenhum escalão, do governo do PT, recebeu os jovens, que tinham reivindicações claras, documento escrito para protocolarem e um fórum denominado Frente Contra o Aumento da Passagem. Fórum, aliás, integrado democraticamente por ativistas do MPL, PSTU, anarquistas, independentes e muitos outros.

Ontem, dia 20 de junho, o protesto foi diferente. Os seiscentos manifestantes de outrora se transformaram em algo como cinquenta mil. A PM, que decidiu virar ativista e fazer política, espalhou faixas com dizeres como "Viva a Paz - PM-GO" e distribuiu rosas para os transeuntes. Pensei: "quando militares viram militantes políticos sem antes desertarem, algo de muito ruim está por vir". Acreditei estar, no meio da multidão, de um lado que, digamos, não era exatamente o meu. O fato é que vi legiões de pessoas brancas (lembrei-me de Sartre a indagar "onde estão os negros do Brasil?"), enroladas em bandeiras do Brasil, cantando o hino de Osório Duque Estrada, aplaudindo a PM e portando cartazes como o seguinte: "Ronaldo, você disse que não se faz copa com hospital, mas com estádio. Eu te digo: suruba se faz com mulheres, não com travestis". Não vi nada, nada, absolutamente nada sobre as tarifas de transpo rte. O pior, contudo, estaria por vir.

Perdido, não me cansava de telefonar para um camarada do PSTU, de modo a tentar me posicionar, naquela Babel, junto àqueles com quem tinha acordo. Lembrei-me de 1992, no Fora Collor, quando, aos treze anos, me perdi e fiquei com o pessoal do PCdoB (meus eternos adversários no movimento estudantil de MG) que, aliás, não se cansavam de me abraçar e dizer "companheiro, hoje a nossa luta é comum... Fora Collor!". Consegui contactar o camarada e ouvi uma narrativa assombrosa: turbas de homens fortões atacaram violenta e covardemente os ativistas do PSOL, do PCB e do PSTU. Jogaram bombas, bateram, deram um soco na cara de uma militante da juventude, que foi ao chão. Berravam: "viados, viados, viados". A mesma massa que entregou um "vândalo" nas mãos da PM ontem assistiu, passiva e aquiescente, a tão nefasto ritual. Depois, contaram-me que uma bandeira do movimento LGBT também fora vandalizada e, ademais, qu ebraram um carro de som do PT. Pensei na Guerra Civil Espanhola. Com a PM que distribuía rosas, a esquerda correndo de bombas disparadas por civis e brados moralistas e homofóbicos, entendi que descera na estação da Marcha da Família com Deus pela Liberdade. Perdoem-me certa pieguice, mas chorei. Caminhei um quilômetro em direção à sede do partido, onde vi os jovens que estiveram, desde o primeiro dia, abnegadamente engajados nas lutas sociais da cidade, serem hostilizados cruelmente sob o tão invertido grito de "oportunistas"! Tudo o que eu queria era ver bandeiras da CUT (que não me representa!), do PT (que não me representa!), da UJS (que jamais me representou) no ato de ontem. Eles que se expliquem quanto às contradições atinentes à dupla militância no governo que reprime e nas ruas que lutam. As pessoas que façam seu julgamento político. Mas jamais os calarei. Concordo com Trotsky quando, ao avaliar a burocratização stalinista, considerou que “A interdição dos partidos de oposição acarretou a interdição das facções; a interdição das facções conduziu à interdição de pensar de modo diferente do chefe infalível. O monotelitismo policial do partido teve como consequência a impunidade burocrática, que se tornou por sua vez a causa de todas as variedades de desmoralização e de corrupção.” Quero o meu partido nas ruas e, quando a luta for comum, não descerei as bandeiras dos outros. Concluo, pois, dizendo que irei a todas as próximas manifestações e disputarei esse espaço. Todo movimento de rua relevante na história trouxe em si certa indefinição e cabe aos lutadores disputarem-no. Fiquei muito feliz ao saber que os ativistas dos partidos de esquerda só não sofreram mais violência física porque jovens da periferia, trabalhadores, os defenderam. As lutas que hoje ocorrem no Brasil carregam a semente da mudança progressiva, da revolta popular mas, lado outro, também têm um poten cial fascista. Cabe a nós fazer essa história. Cabe a nós vencer. Ficam, do episódio, algumas perguntas, que formulei em 2012, quando a mesma hostilidade contra a esquerda teve lugar nos atos do Fora Marconi, ainda que em grau de violência inferior:

1 - Se os partidos são, todos, inimigos da democracia, da liberdade e da auto-organização, por qual razão todas as ditaduras, sem exceção, impediram a livre organização partidária e não aceitaram a existência de agremiações trotskistas ou democrático-socialistas? Quem, na história da humanidade, além das ditaduras mais truculentas já conhecidas – como o stalinismo, o fascismo e os regimes autoritários da América Latina – já impediu o direito de expressão pública de partidos trotskistas (como o PSTU e parte significativa do PSOL)? É esta vossa fonte de inspiração?

2 - Em um protesto contra que se pretende realmente democrático, não deveriam ser ouvidas todas as vozes que se unem à causa? Quem decide (e com que legitimidade o faz) que uma parte das pessoas aderentes ao protesto deve ser silenciada e censurada? Onde foram condenados os ativistas socialistas ao silêncio e qual foi a sua chance de se defenderem ou argumentarem?

3 - Seriam os jovens realmente tão ingênuos, fracos e volúveis, de modo que a simples concessão do direito de livre expressão aos partidos políticos os tornaria presas fáceis de processos de cooptação ou de instrumentalização?

4 - Uma ONG financiada por empresários e pelo Estado é mais legítima do que um partido custeado apenas por contribuições voluntárias dos respectivos militantes e simpatizantes? A PM, que atuou como militante e ergueu faixas próprias, é mais legítima para se expressar politicamente do que jovens trabalhadores que estão nas ruas desde os primeiros protestos? Quem são os verdadeiros oportunistas?

5 - Apenas individualidades devem se expressar politicamente, de modo que partidos, movimentos sociais, sindicatos e organizações revolucionárias devem ser banidos da política? Não é o liberalismo extremo, hoje reinante no mundo em que estamos, quem propõe esta noção filosófica hiper-individualista e caótica da sociedade? Em que se diferenciam aqueles que entendem que o indivíduo é a unidade última e soberana da sociedade política em relação à prática e à teoria de grandes banqueiros e governantes?

6 - Se toda forma de organização coletiva é opressora e se toda decisão decorrente de voto é ilegítima, como garantirmos que atos de protesto não incorram em uma cacofonia de dezenas de microfones falando ao mesmo tempo (como no dia 20 de junho em Goiânia...) e na babelização da política, em que ninguém quer ouvir e todos querem falar apenas para alimentar os próprios impulsos catárticos individuais? Isso não é uma afirmação radical do status quo liberal e capitalista?

7 - Como podemos viver em sociedade sem entendermos que há o outro e que, constatada a alteridade, precisamos organizar o tempo da fala, a tática da ação coletiva e a estratégia dos nossos projetos comuns, sob pena de incorrermos em uma histeria sem um dia seguinte histórico?

8 - Quando, na história da modernidade, grandes transformações sociais encontraram longevidade quando se iniciaram cerceando a liberdade de expressão e de participação dos militantes de partidos que apoiavam as causas insurgentes?

Um grande abraço.

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